Da periferia do Rio de Janeiro para o mundo: a ascensão meteórica de Anitta

26 abril 2018

De Honório Gurgel, na periferia do Rio de Janeiro, aos palcos do mundo, Anitta tem construído uma carreira meteórica. Aos 25 anos e em menos de uma década, a artista passou de cantora de funk a um dos principais nomes do pop brasileiro, agora focada no mercado internacional. A estreia a solo em Portugal está marcada para o dia 24 de junho, no Rock in Rio Lisboa.

A chave do sucesso não está apenas na espontaneidade das suas partilhas nas redes sociais, que atraem 28 milhões de seguidores no Instagram, mas também no seu profissionalismo, que não deixa espaço para improvisos – cada passo da sua carreira é calculado e as suas respostas em entrevistas parecem ser elaboradas para não interferir na sua estratégia de marketing.

“Uma artista tem que saber quem é, ser coesa na construção da carreira, ter um discurso com que as pessoas se identifiquem e sustente o que se propõe a fazer”, resume a cantora em entrevista à AFP na sua mansão na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio de Janeiro.

Nascida a 30 de março de 1993, Larissa Machado começou a cantar ainda criança na igreja frequentada pela família. Aos 17 anos, foi descoberta por um produtor que assistiu a um vídeo seu no YouTube e passou a atuar em bailes funk da Furacão 2000.

A fama chegou há cinco anos, com os hits “Meiga e Abusada” e “Show das Poderosas”. A partir daí não parou mais: a sua carreira evoluiu com ações de marketing como o fenómeno pop “Bang” (2015), que tem 343 milhões de visualizações no YouTube, e o projeto de vídeos mensais “CheckMate” (2017).

“O meu objetivo era ter materiais em outras línguas disponíveis nas redes. Pensei numa forma que fosse prática, rápida e que não fosse uma coisa que eu ia fazer e ninguém ia ver. O Brasil consome muitos singles e, para eu conseguir um pouco de visibilidade lá fora, teria que usar os meus números daqui. Então pensei em videoclipes mensais, criando expectativa”, conta.

“A primeira (canção, ‘Will I See You’) era uma proposta completamente nova, mas que mostrava a minha potência vocal. A segunda (‘Is That For Me’) era mais comercial. A terceira (‘Downtown’), um pouco mais ousada e em espanhol. E a última (‘Vai Malandra’), o Brasil que eu estava habituada a fazer”, explica Anitta.

Outro exemplo é o videoclip de “Indecente”, gravado na sua festa de aniversário este ano e transmitido em direto no YouTube.

O sucesso, explica Anitta, está em “fazer diferente”. “Faço pesquisas de mercado, mais para fazer diferente do que para seguir tendências. Procuro aquilo que ainda não foi explorado”, afirma.

De Anitta a ‘Anira’

Hoje Anitta acumula sucessos, é sua própria empresária e gere também a carreira de outros dois cantores. Foi considerada a 10ª artista mais relevante do mundo nas redes sociais pela Billboard e está entre as 100 pessoas mais influentes e criativas do mundo, segundo a Vogue.

No entanto, foge ao rótulo diva.”Diva tem muito de idolatrarão e eu sou mais pé no chão, gente da gente. Até tenho os meus momentos de diva, mas não quero ser vista como uma coisa intocável”, afirma a cantora, cercada por uma ‘entourage’ de funcionários que tratam do cabelo, da maquilhagem e do apoio para garantir que tudo seja perfeito.

“A Beyoncé é uma grande diva, a Rihanna. A Mariah Carey, para mim, é a primeira de todas, porque cresci a ouvi-la. E aqui no Brasil, a Marisa Monte”, revela.

Em 2017, após cantar no programa “Tonight Show”, da NBC, ganhou dos fãs brasileiros o apelido carinhoso “Anira”. E fez uma série de parcerias internacionais, entre elas com DJ Alesso, Major Lazer, Poo Bear e Iggy Azalea.

Mas o seu sonho, conta, é cantar com o rapper Drake: “Tenho amigos em comum, mas não sou inconveniente, não sou ‘pedinte’. Tenho bom senso. Vamos esperar o destino”, frisa.

No início de abril, ficou surpreendida com o convite para falar sobre a sua carreira e experiência no mundo dos negócios na Brazil Conference, nos Estados Unidos, organizada pelas universidades de Harvard e MIT.

“Achava que ia chegar aonde queria no Brasil com uns 30 anos. Aí fiz 22 e já estava super bem. Gosto de desafios, então fui pesquisar o mercado internacional”, contou.

En español

Anitta identificou na América Latina um nicho de mercado e gravou com os colombianos Maluma e J Balvin. “Comecei a entender que, embora o inglês seja a língua universal, o espanhol tem números equivalentes aos de consumo da língua inglesa”, explicou.

A artista conta ainda que passou dois anos a visitar clubes e locais populares em Espanha, Estados Unidos e México para entender o mercado não só pela visão da indústria, mas também das pessoas.

Anitta lembra ainda que o Brasil já chegou a consumir música pop latina através de cantores como Ricky Martin e Alejandro Sanz, e antecipou um retorno do estilo. Ao perceber o espanhol como a próxima tendência, começou a pensar em como resgatar o mercado latino. “Só me antecipei e procurei ‘puxar’ essa corrente “, explica.

Novos horizontes

“La bombe latine”, como é conhecida em França, quer mais. Este ano ela planeia passar uma semana por mês fora do Brasil para se dedicar à carreira internacional. Em junho, vai atuar no Rock in Rio Lisboa e tem concertos agendados para o mesmo mês em Paris e Londres.

No Brasil, tem projetos como o DVD infantil “Clube da Anittinha”, com temas educativos para “ensinar, informar as crianças de forma divertida”, diz.

Recém-casada com o empresário Thiago Magalhães, Anitta espera ter um ritmo de trabalho menos intenso no futuro.”Daqui a 10 anos,  vejo-me desacelerada, já com os meus sonhos realizados e focada nas coisas que adoro”. Sobre a maternidade, é sucinta: “se acontecer, faço uma pausa, sim”.

“Todos os sonhos que tinha, já conquistei. Tinha muita vontade de mostrar às pessoas que era possível fazer o que todos dizem ser impossível. Esse era meu maior sonho. Hoje em dia, estou mesmo realizada”, confessa.

 

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