Anitta, a Poderosa: “É muito difícil dar uma opinião sem fazer montes de inimigos”

23 junho 2018

Anitta quase que dispensa apresentações. Com apenas 25 anos é já um nome maior da música brasileira. Mas a sua música não tem fronteiras e bate recordes.

Em 2017 Anitta foi eleita pela Billboard como a 15ª artista mais influente nas redes sociais, ultrapassando Lady Gaga, Shakira e Rihanna. Mas não fica por aí. “Sua Cara”, com Major Lazer e Pabllo Vittar, bateu recordes mundiais como o vídeo mais visto em 24 horas e o mais rápido a alcançar um milhão de likes no YouTube. Já no Spotify, “Vai Malandra”, no mesmo ano, fez história ao tornar-se na primeira canção em português a entrar no top 20 global do serviço.

 

Mas a carreira da cantora brasileira não se faz apenas de números. Somam-se nomes, os das colaborações nacionais e internacionais. Nego do Borel & Wesley Safadão, Simone & Simaria, Luan Santana, Maluma, J Balvin, Iggy Azalea, Alesso e os já referidos Major Lazer e Pabllo Vittar refletem uma aposta em sonoridades que vão do funk ao reggaeton, cantadas em português, inglês e espanhol.

Nascida no Rio de Janeiro em março de 1993, Larissa — nome de batismo — era uma menina que tinha o sonho de se tornar cantora. Ainda na adolescência, começou a gravar vídeos e a publicá-los no YouTube. Até que foi descoberta por um produtor musical, da Furacão 2000, e assim se tornou Anitta, nome inspirado na série “Presença de Anita”, da Rede Globo. Pelo meio terminou o curso técnico de Administração Pública.

Que atire a primeira pedra quem nunca trauteou prepara… que agora é a hora do show das poderosas. O tema, de 2013, lançou-a para o estrelato no Brasil. E até levar a carreira para um nível internacional foi um salto — e um álbum, “Bang”.

Em 2016 Caetano Veloso e Gilberto Gil convidaram-na para cantar, a seu lado, na cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos que nessa edição foram sediados no Rio de Janeiro. A imprensa internacional comparou-a, na altura, a Beyoncé. E, tal como “Queen B”, também Anitta tenta exaltar a liberdade feminina na suas letras.

A cantora sobe ao palco do Rock in Rio Lisboa este domingo, no mesmo dia de Bruno Mars e Demi Lovato, naquela que será a primeira atuação em solo nacional. Já na capital, Anitta falou ao SAPO24 sobre a sua música, as suas regras e as suas opiniões.

Porque é que só agora temos a Anitta em palcos nacionais?

Olha, pois é. Demorou, mas foi uma demora boa. Criou uma expectativa. Sempre quis ir a um país quando eu já tivesse um tempo de carreira suficiente para conseguir fazer um show incrível. Não gosto de entregar meia bomba, sabe? Acho que agora é o momento certo.

Que pergunta é que está farta que lhe façam?

Ai! “Como é que você começou a sua carreira?”. Mas faz parte, não é? Todo o mundo quer saber.

Já conquistou o Mundo. O que é que alavancou o seu sucesso?

Acho que é a verdade. Eu sou muito verdadeira, muito sincera no meu trabalho. Não só nas coisas que falo, mas no trabalho em si. Não faço nada em que não acredite. Então, acho que é isso.

“Espero um dia poder contar a minha história nos mínimos detalhes para que possa dar força para outras pessoas”

Desde 2014 que assumiu a gestão da sua carreira. Como é ser artista e estrategista da sua carreira? Ou melhor, o que separa a cantora Anitta da empresária Anitta? Ou nada as separa?

No palco eu estou ali com uma única missão: a de entreter e alegrar as pessoas. Fora do palco e como empresária é garantir que tudo dê certo para que a Anitta [cantora] consiga subir e pôr em prática o trabalho dela.

Música é informação. Como é que através dos seus temas passa uma mensagem e relata a realidade do Brasil de hoje?

Tento fazer isso de uma maneira leve e divertida. Tento provocar o debate sem que precise necessariamente de estar discursando sobre o assunto. [Como?] Colocando nos meus vídeos algo que faça as pessoas debater e nas minhas letras algo que as faça conversar. Acho importante causar isso nas pessoas porque é com conversa e com debate que você muda o pensamento, que você melhora e vai para a frente. O “Vai Malandra” levantou um grande debate, dentro e fora do Brasil. Óbvio que muita gente concordou comigo, outra que não. A intenção não era que concordassem, mas sim que pudessem expor a sua opinião. Deixando claro que, independentemente de você pensar diferente de mim, ou não, eu tenho que respeitar e não te posso odiar só porque não pensa igual a mim.

Os seus temas falam e transmitem uma ideia de empoderamento feminino. É feminista?

Sim, com certeza. Ser feminista é lutar pela liberdade, de escolher o que você quiser, de não precisar de seguir as regras, de ter os direitos iguais a todo o mundo, a não ser subestimada por ser x ou y. Mas isso, hoje em dia, não se aplica só às mulheres. Também se aplica aos transexuais, aos homossexuais e a toda a gente que se disponha a ser diferente da maioria.

“Tento colocar nos meus vídeos algo que faça as pessoas debater e nas minhas letras algo que as faça conversar”

A Anitta não segue regras ou faz as suas próprias regras?

Faço as minhas próprias regras, com certeza. Seguir regras é importante. Até porque, poxa, se não tivesse regras seria difícil viver em sociedade. Mas o importante é você escolher aquelas regras que te fazem sentido.

E que regras são essas?

O respeito vem acima de tudo. A partir do momento em que você invade o espaço do outro, você está errando. Se você não está invadindo o espaço do outro, você está livre para fazer com você o que você quiser.

Que barreiras ainda quer ultrapassar, a todos os níveis — do pessoal ao profissional?

Olha, eu sou muito realizada hoje com o que já fiz. O que eu puder crescer é bacana, mas eu não me frustro se não acontecer. E não sou aquela pessoa de ficar querendo mais até… Sabe? De não estar nunca satisfeita. Não, eu estou feliz e o que vier a mais é bom. Não sei, até, se conseguiria estar mais feliz. Agora estou só trabalhando dando seguimento ao que já faço. Espero que as coisas continuem caminhando do jeito que elas estão.

Sente que pode ser um exemplo para muitas mulheres? Não só no Brasil, mas para todas as mulheres que ouvem a sua música?

Espero que sim. Porque eu vim de uma origem muito humilde e não é fácil você conseguir chegar tão longe tendo a realidade de vida que eu tive. Então, espero um dia poder contar a minha história nos mínimos detalhes para que possa dar força para outras pessoas.

“Hoje em dia é muito difícil dar uma opinião sem trazer para você montes de inimigos. Eu dou a minha opinião da maneira que eu acredito”

Com a exposição constante nas redes sociais sente uma obrigação de ter uma opinião sobre tudo? Recordo-me das críticas de que foi alvo por não reagir à morte da vereadora e ativista Marielle Franco…

As pessoas querem muito que você tenha uma opinião. E eu tenho uma opinião sobre tudo, óbvio. Só que eu sou uma figura pública com milhões de seguidores. Hoje em dia, não sei como é aqui, mas no Brasil as pessoas não têm aceitado muito que o outro pense diferente. Então, é muito difícil dar uma opinião sem trazer para você montes de inimigos. Eu dou a minha opinião da maneira que eu acredito. [Nessa situação da Marielle] Muita gente falou mal porque eu disse que me manifestaria depois. As pessoas querem [esse comentário] na hora. E para mim a vida é muito mais que as redes sociais, entende? Faço o meu papel como cidadã e como ser humano da maneira que eu acredito, não significa que postando, ou não, nas minhas redes sociais estou ou deixei de estar fazendo o meu papel. As pessoas têm de relaxar um pouco com essa coisa da Internet, ela é legal e importante, mas não é tudo.

Estamos em pleno Campeonato do Mundo – aliás, o Brasil jogou hoje [sexta-feira, 22], e venceu já nos descontos. Cantou com Thiaguinho um hino para a “Copa” intitulado “Mostra a Tua Força, Brasil”. É torcedora?

Eu torço, mas não sou fanática. Quero saber se o Brasil ganhou ou perdeu, mas não paro tudo para ver o jogo. Hoje eu estava cochilando porque estava muito cansada [Anitta viajou durante esta sexta-feira para Portugal]. Vejo muita gente comemorando a perda dos outros e eu não sou assim não, ok? Fico feliz quando o Brasil ganha, mas também fico quando as outras seleções vencem. Espero muito que o Brasil chegue na final, porque dará uma alegria muito necessária para os brasileiros. Espero que sim, mas também não fico festejando os países que caem. Torço para Portugal se dar bem, para o México… Poxa, fiquei triste com a derrota da Argentina [perdeu com três golos a zero contra a Croácia] que é um país que me recebe muito bem também.

O que podemos esperar do concerto deste domingo no Rock in Rio Lisboa?

Acho que vou superar-me. E espero que as pessoas se surpreendam.

 

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